Privacidade na internet: você sabe quem usa seus dados?

Já estamos acostumados com a vida conectada, mas estamos cientes de toda a sua complexidade? Quando discutimos tendências tecnológicas e como as cidades estão mais inteligentes, estamos falando também sobre coleta e uso de dados. Nossos dados. Isso tem a ver com a questão da privacidade na internet, que atualmente é destaque no mercado, na política e na sociedade.

Temos privacidade na internet?

Nos últimos anos, aprendemos a tomar cuidado com o que publicamos por aí. Algumas medidas de segurança já são mais conhecidas como:

  • não enviar endereços pessoais para desconhecidos;
  • não compartilhar fotos comprometedoras;
  • não partilhar senhas e detalhes bancários.

Mesmo estando mais atentos com o que colocamos nas redes, ainda não sabemos o suficiente sobre os dados que disponibilizamos para empresas. Algo que também é um tópico de privacidade na internet, uma vez que:

Privacidade está relacionada com nosso direito de controlar os tipos de compartilhamento e uso das informações sobre nossas vidas, quem pode saber o que, e em quais condições – SaferNet Brasil

Tendo isso em mente, a resposta para a pergunta que nomeia esta seção se torna negativa. Afinal, uma vez que disponibilizamos nossos dados para diversas plataformas, não somos mais capazes de controlá-los. Ao menos não totalmente.

Qual o valor da privacidade?

Antes da tecnologia atual, já existia o ditado: “de graça, até injeção na testa”. Hoje em dia, podemos reformular para “de graça, até abro mão dos meus dados”.

A lógica, como explica a professora holandesa José van Dijck em seus trabalhos, é a seguinte: ao concordar com os termos de uso de redes sociais, serviços digitais e sites gratuitos, nós pagamos um preço e não estamos falando só de visualização de anúncios.

Em troca da conveniência oferecida pelas plataformas, disponibilizamos a elas os nossos dados.

Nesta entrevista para a diggit magazine, a pesquisadora fala mais sobre o assunto. Infelizmente, o vídeo está disponível apenas em inglês, mas fica a dica para nossos leitores bilíngues:

Em seu relato, van Dijck também fala sobre como as grandes empresas de tecnologia (Amazon, Apple, Microsoft, Facebook e Google) são detentoras das mais diversas informações sobre seus usuários e ainda sem nenhum tipo de regulação internacional.

Quem manda nos dados?

Indo ao lugar certo, é possível extrair os seus dados pessoais das plataformas. No caso do Instagram, por exemplo, você consegue as seguintes informações:

  • imagens e vídeos que você já publicou no feed e nos stories, inclusive aquelas arquivadas;
  • o que você curtiu;
  • as curtidas que você recebeu;
  • quem você segue;
  • quem te segue;
  • suas interações;
  • comentários que você fez;
  • comentários que recebeu;
  • o número de vezes que você curtiu fotos de um determinado usuário, e muito mais.

É importante ressaltar que a visualização de informações como estas não é simples, uma vez que muitas vezes necessita de softwares específicos. Mesmo assim, ter acesso aos próprios dados é direito do usuário, o que não quer dizer que tenhamos controle sobre eles. Certamente não esperamos que nossas informações sejam distribuídas para qualquer um. Porém, elas são frequentemente utilizadas pelos algoritmos.

As nossas buscas no Google, o histórico do navegador, nossas últimas compras, quem seguimos, e até mesmo os conteúdos de comentários e mensagens que enviamos são utilizados pelas empresas.

Isso serve para tudo, desde profilamento para publicidade até determinação de crédito para empréstimo financeiro. Ou seja: seus dados ajudam o Facebook a determinar se um anúncio publicitário é ou não de seu interesse, e também deixa mais fácil para as empresas de crédito determinarem se você é ou não um bom pagador.

Tem solução?

Para ter mais privacidade na internet, cada um de nós pode mexer uns pauzinhos nas configurações das redes sociais, aplicativos e outras contas digitais. Limitar o monitoramento de localização em apps que não precisam de GPS, delimitar quem pode ver o que nas nossas redes, trancar perfis e usar abas anônimas são micro soluções que podemos adotar.

Porém, também é preciso uma posição macro para nossos dados estarem seguros.

Em um nível governamental, a União Européia (UE) é uma referência para privacidade na internet e lançou ano passado uma legislação específica sobre o assunto. A General Data Protection Regulation (GDPR) regula o processamento de dados pessoais de indivíduos na UE por terceiros, sejam pessoas, companhias ou organizações.

Os principais pontos da legislação são:

Linguagem clara

Muitas vezes as empresas explicam seus termos em grandes e complexos textos. Com a GDPR, elas são obrigadas a descrever suas Políticas de Privacidade de forma clara e direta.

Consentimento dos usuários

Silêncio não é mais consentimento. Os usuários agora precisam consentir de maneira afirmativa antes de uma organização usar seus dados.

Mais transparência

As companhias têm que informar claramente os usuários sobre transferências de dados para fora da UE. Os dados também só podem ser utilizados com propósitos bem definidos, que devem ser comunicados aos usuários.

Ademais, as organizações também tem que avisar quando decisões são automatizadas, ou seja, feitas através de algoritmos, e dar ao usuário uma chance de contestação acerca do que é decidido.

Direitos mais fortes

As empresas precisam informar imediatamente aos usuários em caso de vazamento de dados prejudiciais.

No caso das redes sociais, o usuário também tem direito de transferir seus dados para outra plataforma, mesmo se ela for concorrente da anterior.

Uma das conquistas mais interessantes é a do direito de ser esquecido, que garante de forma segura ao usuário ter todos os seus dados deletados das bases de organizações.

Maior fiscalização

Conselho Europeu de Proteção de Dados tem o poder de fornecer orientação, interpretação e adotar decisões vinculantes no caso de muitos países da União estarem preocupados com o mesmo caso.

Além disso, os 28 membros do Conselho podem cobrar multas de até 20 milhões de Euros ou 4% do volume mundial de negócios de uma empresa.

Com essa regulamentação, os europeus acabaram inspirando muita gente, inclusive o pessoal do outro lado do Atlântico.

Nos Estados Unidos, a candidata a presidência Elizabeth Warren tem a privacidade na internet como um dos pilares de sua campanha. Vale lembrar que o diálogo sobre o uso de dados é muito importante — e polêmico — nos EUA, uma vez que o país é a casa das principais empresas tech.

Mas, aparentemente, Mark Zuckerberg quer colocar o papo em dia. De acordo com o post em sua própria rede social, Zuck fala que empresas como o Facebook tem “imensas responsabilidades”. Ele elogia a GDPR e propõe uma quadro global para as organizações focando em quatro áreas: conteúdo nocivo, integridade eleitora, privacidade e portabilidade de dados. Tudo a ver com o que estamos falando aqui, não é?

A conversa parece estar evoluindo, porém, o caminho para garantir a privacidade na internet não parece ser dos mais curtos. Ainda mais considerando que entra em conflito com os interesses de figurões da tecnologia. Porém, tudo indica que, com o tempo, vamos encontrando um meio termo que garanta nossos direitos.

Estar ciente do que está rolando no mundo digital é muito importante nesse processo. E, para te ajudar com isso, temos uma seleção especial de posts só com as últimas tendências tech. Não deixe de ler!

Total
44
Shares

Inovação na sua caixa de entrada

Receba conteúdo relevante. Grátis e sem spam.